Da fazenda à sala de aula: Como um grupo de pais e mães está mudando o ensino no Brasil - Produzindo Certo
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Da fazenda à sala de aula: Como um grupo de pais e mães está mudando o ensino no Brasil

Associação desenvolve programas como o “Vivenciando a Prática”, que leva alunos e professores para conhecerem de perto a realidade do campo

A educação é a chave para o desenvolvimento de qualquer nação. Ela não apenas prepara os jovens para o mercado de trabalho, mas também molda a forma como enxergam o mundo. No Brasil, um dos maiores desafios é garantir que o ensino esteja alinhado com a realidade do país, oferecendo uma visão equilibrada e baseada em ciência sobre os setores que impulsionam a economia. Foi justamente dessa preocupação que nasceu a Associação De Olho no Material Escolar.

A iniciativa surgiu em 2021 a partir da percepção de pais e mães de que os livros didáticos utilizados nas escolas apresentavam uma visão distorcida e ultrapassada sobre o agronegócio, sem embasamento científico e ignorando os avanços tecnológicos e sustentáveis do setor.

“O setor rural aparece nos conteúdos didáticos de forma transversal, em ciências, geografia, história, matemática, português. Infelizmente ele é tratado muitas vezes em contextos negativos, como conflitos fundiários, problemas ambientais, de qualidade de alimentos – o que tem pouco ou nada a ver com a realidade atual do setor, sem querer romantizar problemas que todas as áreas têm”, disse, em entrevista ao Portal da Produzindo Certo, a produtora rural e administradora de empresas Letícia Jacintho, presidente da associação.

Uma pesquisa da FIA/USP, encomendada pela própria associação em 2023, confirmou essa preocupação ao analisar 94 livros de dez editoras diferentes, constatando que 60% das menções ao agro eram negativas e que menos de 4% dos conteúdos tinham respaldo científico.

Desde então, a associação expandiu suas ações para além da análise dos materiais escolares. Programas como Vivenciando a Prática, que leva alunos e professores para conhecerem de perto propriedades rurais e agroindústrias, e a Agroteca, uma biblioteca digital gratuita com mais de 500 títulos sobre o setor produtivo, já impactaram mais de 40 mil estudantes e professores.

Além disso, a De Olho no Material Escolar mantém um canal de diálogo ativo com editoras, educadores e autoridades públicas, participando de debates estratégicos, como a reformulação do Plano Nacional de Educação (PNE).

O objetivo principal é garantir que as futuras gerações tenham acesso a uma educação de qualidade, conectada à ciência, ao setor produtivo e às oportunidades reais de crescimento e prosperidade. “Só uma educação de qualidade, com foco na eficácia da aprendizagem e na conexão com o setor produtivo, é capaz de aumentar nossa competitividade econômica e garantir desenvolvimento, aumento de renda, ascensão social e perspectivas para as novas gerações de brasileiros”, destacou Letícia.

Os desafios são muitos, no entanto, a associação segue firme no propósito de construir pontes e fomentar o diálogo, acreditando que a educação precisa estar no centro das discussões para garantir um Brasil mais competitivo e inovador.

No horizonte de longo prazo, a De Olho no Material Escolar pretende intensificar sua atuação junto às Secretarias de Educação, ampliar a formação e atualização de professores e contribuir para a modernização dos currículos escolares. Além disso, um dos principais focos é garantir que os materiais didáticos brasileiros atendam aos critérios internacionais de qualidade educacional.

Para conhecer mais sobre a iniciativa, os desafios e planos futuros leia a seguir a entrevista completa com a presidente da associação.

Letícia Jacintho, presidente da De Olho no Material Escolar

O que motivou a criação da Associação De Olho no Material Escolar e quais são os principais objetivos?

A De Olho no Material Escolar nasceu em 2021, da percepção de um grupo de pais e mães, durante a pandemia da Covid-19, de que os conteúdos didáticos que seus filhos utilizavam traziam um retrato antigo e negativo do setor rural, sem bases científicas ou fontes qualificadas e atualizadas, e que também não mostrava a revolução tecnológica e de boas práticas que o agronegócio experimentou nas últimas décadas.

Mais tarde (2023), uma pesquisa extensa realizada pela FIA/USP a pedido da associação, com 94 livros das dez principais editoras de livros didáticos do país, em mais de 9 mil páginas, confirmou que as menções negativas ao agro eram 60% mais frequentes que as positivas ou neutras. E que menos de 4% tinham fundo científico, sendo na absoluta maioria de caráter opinativo ou autoral.

Desde então, a Associação De Olho no Material Escolar expandiu suas ações pelo país e segue trabalhando pela melhoria da qualidade da educação brasileira como um todo, por meio do ensino pautado em evidências científicas, conectado com a vivência prática e focado nos resultados da aprendizagem, para que as futuras gerações desenvolvam plenamente seu potencial e tenham oportunidade de uma vida produtiva e próspera.

Quais foram os principais desafios enfrentados na busca por um material escolar mais alinhado com informações científicas e atualizadas do agro?

O maior desafio é colocar a educação no radar de todos e superar obstáculos, criar diálogos e construir pontes com os Três Poderes e o setor privado, com toda a sociedade, para criar conexões verdadeiras e duradouras. Esse é nosso trabalho do dia a dia.

Só uma educação de qualidade, com foco na eficácia da aprendizagem e na conexão com o setor produtivo, é capaz de aumentar nossa competitividade econômica e garantir desenvolvimento, aumento de renda, ascensão social e perspectivas para as novas gerações de brasileiros.

Você pode citar algum caso específico em que a organização conseguiu promover mudanças concretas no conteúdo dos materiais didáticos?

O setor rural aparece nos conteúdos didáticos de forma transversal, em ciências, geografia, história, matemática, português. Infelizmente ele é tratado muitas vezes em contextos negativos, como conflitos fundiários, problemas ambientais, de qualidade de alimentos – o que tem pouco ou nada a ver com a realidade atual do setor, sem querer romantizar problemas que todas as áreas têm.

A partir de estudo da FIA/USP, produzimos e fomentamos o conhecimento técnico e científico para profissionais da educação e com as dez principais editoras de materiais didáticos, num universo de mais de 30 milhões de estudantes. Esse processo é de ciclo longo, mas estamos ampliando nosso espaço e como referência no tema.

Como a De Olho no Material Escolar tem dialogado com pais, educadores, editoras e órgãos públicos para promover mudanças nos livros didáticos?

Temos vários programas que nos conectam com esses públicos. No nosso programa Vivenciando a Prática, levamos estudantes e professores em visitas coordenadas e com metodologia exclusiva a propriedades rurais, agroindústrias e eventos do setor rural em todo o país. O programa também conta com uma peça teatral.

Assim estimulamos a conexão entre teoria e prática, uma experiência direta com a realidade da produção de riqueza do próprio país, ampliando sua visão de mundo, mostrando oportunidades e possibilidades de escolha e de prosperidade. Já são mais de 40 mil pessoas sensibilizadas.

Nossa Agroteca, biblioteca online e com acesso 100% gratuito, já disponibiliza cerca de 500 títulos sobre diferentes aspectos do agronegócio, para professores e alunos. Os conteúdos multimídia, atualizados a cada semana, são baseados em fatos e dados científicos, têm linguagem acessível e são disponibilizados após a curadoria da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (ESALQ), da USP. São mais de 70 mil acessos desde 2023.

Temos uma atividade de relacionamento com autoridades, de forma institucional e técnica, na definição de políticas públicas em prol de uma educação de qualidade, com geração de oportunidades e progresso para o país. Participamos de mais de 50 audiências com parlamentares, na Câmara dos Deputados e no Senado, destacando o novo Plano Nacional de Educação (PNE) .

Além da parceria e diálogo com as principais editoras de livros escolares, que já mencionei, prestigiamos e ampliamos a atualização e capacitação de professores, destacando um olhar humanizado para o magistério da educação básica.

Criamos em 2024 o Mestres no Agro, de capacitação para profissionais de ensino sobre a evolução do setor produtivo, em formato de curso de extensão, com especialistas renomados e pesquisadores de instituições como ESALQ-USP, Embrapa, FGV,  Insper, entre outras.

Qual a importância de conectar a educação brasileira à realidade do setor produtivo do país e como isso pode beneficiar os alunos no futuro?

A De Olho entende que o agronegócio brasileiro é grande gerador de riquezas, oportunidades e desenvolvimento, e precisa ser tratado no material escolar, de acordo com sua realidade atual. Mas a educação de qualidade é fundamental para impulsionar todos os setores produtivos e garantir o futuro do país em cenários cada vez mais desafiadores.

Há resistência por parte de algumas instituições ou grupos em relação à revisão dos materiais escolares? Como vocês lidam com isso?

Respeitamos a diversidade de opiniões, acreditamos que sempre é possível buscar o diálogo e unir forças entre as pessoas e os grupos que querem melhorar a educação no Brasil.

Quais são os próximos passos da De Olho no Material Escolar? Quais ações estão previstas para este ano?

Este ano, merece atenção especial de toda a sociedade a discussão e aprovação no Congresso do novo Plano Nacional de Educação (PNE), que vai nortear as políticas públicas do setor nos próximos dez anos. A proposta ainda precisa melhorar muito para garantir avanços reais. Faltam governança, metas factíveis e indicadores de gestão. A De Olho no Material Escolar acompanha de perto a discussão do PNE e vai contribuir no que for necessário para garantir uma educação de qualidade para nossas crianças e jovens.

O PNE precisa considerar indicadores internacionais de avaliação da qualidade do ensino, como Pisa e Pirls. Todos os países que são referência em educação de qualidade adotam estes parâmetros internacionais como balizadores de suas políticas públicas em educação.

A valorização do profissional de educação é fundamental. O professor precisa receber qualificação e instrumentos adequados para a aprendizagem dos alunos.

A educação deve se preparar para os novos desafios de incorporar a tecnologia e a inovação, em um mundo hiperconectado, em todos os setores produtivos.

Precisamos zerar a violência no ambiente escolar. Sem um ambiente seguro para alunos, professores e pais, a evasão continuará a ser um dos principais problemas.

Já num horizonte de dez anos, a De Olho no Material Escolar vai enfrentar os desafios estruturais da educação na formação e atualização de professores, melhoria da qualidade do currículo e principalmente do desempenho dos nosso alunos em exames nacionais e internacionais.

Vamos contribuir para a modernização do material didático, com conteúdo científico, atualizado e professores especialistas participando da execução do material.

A De Olho vai ampliar a conexão entre teoria e prática, entre escola, ciência e setor produtivo, ampliando as  possibilidades de escolha e prosperidade das futuras gerações.

Vamos estimular uma gestão escolar profissionalizada, isenta de indicação político-partidária e voltada para resultados de aprendizagem com monitoramento anual.

Vamos realizar aproximação intensiva com as Secretarias de Educação, contribuindo para medição de  resultados com desempenho ligado à aprendizagem.