A sustentabilidade financeira de uma importante iniciativa de produção agrícola responsável acaba de ganhar um reforço significativo. O estudo “Alavancando instrumentos de carbono para sustentabilidade financeira em uma iniciativa de paisagem de soja”, que acaba de ser publicado, apresenta um mapeamento inédito sobre as melhores formas de financiar a conservação e a restauração ambiental na região produtora de soja no Oeste de Mato Grosso.
A pesquisa foi desenvolvida por um consórcio de instituições formado pelo IPAM, PCI Institute, Produzindo Certo e Proforest, com o apoio do Land Innovation Fund (LIF).
Os resultados indicam um enorme potencial de geração de benefícios ambientais e financeiros para produtores rurais e investidores. O estudo destaca que ações de conservação, restauração e agricultura regenerativa podem evitar a emissão de 20,8 milhões de toneladas de CO₂e e sequestrar outras 26,1 milhões de toneladas de carbono.
Além disso, a pesquisa mapeia oportunidades de monetização desses créditos por meio de mercados voluntários e regulados, estratégias corporativas como o Science Based Targets Initiative (SBTi) e programas de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA).
O desafio de financiar a soja sustentável
A Iniciativa de Paisagem Sustentável do Oeste de Mato Grosso é um projeto inovador que busca equilibrar produção agrícola, conservação ambiental e inclusão social.
Atuando em seis municípios-chave para o agronegócio – Sapezal, Campo Novo do Parecis, Campos de Júlio, Tangará da Serra, Diamantino e Alto Paraguai –, se alinha à estratégia estadual Produzir, Conservar e Incluir (PCI) e promove um modelo de produção de soja livre de desmatamento e conversão.
Na prática, o projeto combina ações de assistência técnica a produtores, incentivos para conservação da vegetação nativa e apoio a pequenos agricultores e povos indígenas. O objetivo é criar um ambiente de negócios onde a proteção ambiental se traduza em benefícios econômicos reais, tornando a produção sustentável mais viável e competitiva no longo prazo.
“O produtor precisa enxergar a sustentabilidade como uma aliada da sua rentabilidade. O que esse estudo nos mostra é que existe um mercado crescente para soluções baseadas na natureza e que iniciativas como essa podem gerar valor econômico e ambiental ao mesmo tempo”, avalia Charton Locks, COO da Produzindo Certo, que lidera o pilar da produção dentro da iniciativa, apoiando os agricultores com assistência técnica socioambiental e conectando oportunidades de mercado.
Créditos de carbono
O estudo também traz uma análise detalhada sobre os mecanismos financeiros que podem impulsionar a sustentabilidade da iniciativa. Entre eles, os créditos de carbono jurisdicionais (JREDD+), as metas corporativas do SBTi FLAG e BVCM, os Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) e o RenovaBio.
A pesquisa aponta que, caso as estratégias de conservação e restauração sejam ampliadas, Mato Grosso pode se tornar um dos principais fornecedores brasileiros de créditos de carbono, tanto para o mercado voluntário quanto para um futuro mercado regulado de carbono no Brasil.
O preço dos créditos pode variar entre 10 e 150 dólares por tonelada de CO₂e, dependendo do tipo de projeto e do nível de rastreabilidade.
“O Mato Grosso tem todas as condições de se tornar um grande player do mercado de carbono. Mas, para isso, é essencial que o produtor rural tenha clareza sobre as oportunidades e que os mecanismos de financiamento sejam acessíveis e viáveis”, reforça Charton Locks.
Principais desafios
Apesar do grande potencial identificado, o estudo também ressalta desafios estruturais e regulatórios que precisam ser superados para que o financiamento sustentável da iniciativa se concretize.
Entre os principais entraves estão a necessidade de evitar a dupla contagem de créditos de carbono, garantindo que reduções e remoções de emissões sejam contabilizadas corretamente dentro dos sistemas existentes.
Além disso, a falta de padronização nos mercados de carbono, tanto no Brasil quanto no exterior, pode dificultar a valorização desses ativos ambientais.
O estudo também aponta que, embora o interesse corporativo por soluções climáticas esteja crescendo, os mecanismos de rastreabilidade e monitoramento ainda precisam evoluir para que as empresas possam comprovar de forma mais robusta os impactos positivos de seus investimentos em paisagens produtivas sustentáveis.
Próximos passos
A pesquisa destaca que a combinação de diferentes instrumentos financeiros é a melhor estratégia para viabilizar a transição para uma paisagem produtiva mais sustentável. O estudo sugere ainda que políticas públicas e incentivos privados devem trabalhar juntos para garantir que os produtores tenham suporte na adoção de práticas regenerativas e na preservação da vegetação nativa.
O estudo, portanto, mostra que é possível conciliar produção de alta performance com conservação ambiental e geração de valor econômico. Com os avanços no mercado de carbono e o interesse crescente das empresas por cadeias produtivas sustentáveis, a iniciativa do Mato Grosso pode servir de referência para outras regiões do Brasil e do mundo.
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Acesse o estudo na íntegra aqui